Por Luis Carlos Munhoz
Para quem viveu em Ilha Solteira nas décadas de 1980 e 1990, a imagem recente do antigo Clube SEIS (destinado originalmente aos operários das categorias 3 e 4 da CESP) sendo consumido pelo fogo e entregue às cinzas não é apenas um registro de incêndio.
É a certidão de óbito de uma era de ouro. É o retrato cruel do apagamento da nossa própria história.
O Auge:
O Coração Pulsante da Cidade Elétrica durante o auge da construção e consolidação da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, a cidade respirava o ritmo da CESP (Companhia Energética de São Paulo). Naquela estrutura urbana rigidamente planejada, os clubes recreativos eram o verdadeiro ponto de encontro e o coração social do município.
Enquanto os engenheiros e diretores de alto escalão frequentavam o CAIS (Clube Atlético Ilha Solteira), o SEIS — a Sociedade Esportiva Ilha Solteira — era o refúgio vibrante, a área de lazer onde os trabalhadores das categorias 3 e 4 que esqueciam o peso do trabalho pesado da barragem.
Nas décadas de 80 e 90, o clube transbordava vida:
Finais de semana inesquecíveis: Famílias inteiras reunidas ao redor das piscinas para aplacar o calor escaldante da região.
Esporte e Comunidade: Campeonatos acirrados de futebol de salão, vôlei e truco que mobilizavam bairros inteiros.
Noites de Gala e Bailes: Festas de Carnaval, bailes de debutantes e shows que marcaram a juventude de milhares de ilhenses.
O SEIS não era apenas tijolo e concreto; era o símbolo do suor, da dignidade e da alegria daqueles que ergueram uma das maiores usinas do mundo.
O Declínio: Do Esplendor ao Abandono
Com a privatização, a concessão da usina e as mudanças na administração das antigas propriedades da CESP, o patrimônio que outrora pertencia ao cotidiano da comunidade começou a ser fatiado e esquecido.
O SEIS, assim como outras tantas estruturas históricas da cidade (como a Pousada do Pavão e antigos alojamentos), entrou em uma espiral de abandono de dar nó na garganta de quem tem memória.
Mato alto, vidros quebrados, estruturas saqueadas e piscinas transformadas em focos de lodo.
O clube que já foi sinônimo de orgulho operário passou anos agonizando em praça pública, virando abrigo improvisado e ponto de vandalismo. Uma decadência lenta e dolorosa.
O Incêndio e o Clamor: Cadê as Autoridades?
O recente incêndio que atingiu o local não foi um acidente isolado; foi a crônica de uma tragédia anunciada. Quando o poder público e as empresas herdeiras desse patrimônio fecham os olhos para o abandono, o fogo e a destruição tornam-se meras consequências do descaso.
Ver as chamas consumirem parte do que resta do Clube SEIS deixa uma pergunta incômoda ecoando no peito de cada morador: Cadê as autoridades?
Uma cidade que não protege o seu passado condena o seu futuro ao esquecimento. O SEIS merecia ter sido transformado em um centro cultural, em uma escola técnica, em um complexo de saúde ou reabilitação — projetos que tantas vezes foram ensaiados, mas que morreram no papel.
Hoje, parte do antigo bar onde o incêndio atingiu ficou em cinzas, fumaça e a indignação. Mas, para os filhos da terra, as memórias dos mergulhos, dos gols e dos sorrisos nos anos 80 e 90 jamais queimarão.
Fica o luto e a cobrança por respeito à história viva de Ilha Solteira.
Vídeo do Incêndio no Clube SEIS
Luis Carlos Munhoz
Ex-Morador de Ilha Solteira
LOCUTOR/APRESENTADOR/JORNALISTA/RADIALISTA DE ANDRADINA

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