A sessão extraordinária realizada na última sexta-feira na Câmara Municipal de Ilha Solteira foi marcada por um intenso embate entre parlamentares durante a discussão de projeto que trata do remanejamento de recursos destinados às entidades assistenciais do município.
O clima esquentou após manifestações críticas ao governo municipal sobre a retirada de valores originalmente previstos para o Centro Dia e para políticas voltadas à população em situação de rua.
Presidente critica narrativa do Executivo
O presidente da Câmara, vereador Ricardo Casagrande, afirmou que o governo municipal tem adotado uma postura de “transferência de responsabilidade” pelos problemas enfrentados na cidade.
Segundo ele, antes as falhas eram atribuídas exclusivamente ao ex-prefeito, e agora também estariam sendo direcionadas ao Legislativo. Ricardo citou como exemplo um projeto anterior que previa o remanejamento de quase R$ 7 milhões da Saúde para a Secretaria de Desenvolvimento, o que classificou como “absurdo” e “inconstitucional”.
O presidente relembrou que a Câmara reprovou a proposta e que, após cobrança pública, o Executivo enviou um novo projeto específico para atender o hospital. “A Câmara jamais vai se colocar contra qualquer projeto que atenda os anseios da comunidade”, afirmou, acusando o governo de insistir em uma narrativa de incompetência atribuída ao Legislativo.
Sargento Carlos defende remanejamento
Em resposta, o vereador e líder de governo Sargento Carlos apresentou trecho de ofício da Secretaria de Assistência Social detalhando as alterações orçamentárias.
Ele explicou que houve aumento de repasses para diversas entidades — algumas com reajuste de 20% e outras de 50% — o que elevou o total previsto para cerca de R$ 2,6 milhões, acima dos R$ 2,2 milhões inicialmente orçados. Segundo ele, por essa razão foi necessária a suplementação e o remanejamento de fichas orçamentárias.
“É uma coisa comum ser feita pelo Executivo. O orçamento cabe ao Executivo”, afirmou. O vereador reconheceu não ter formação técnica em economia, mas disse confiar nas explicações apresentadas e manteve seu voto favorável ao projeto.
Tomate rebate e questiona prioridades
O vereador Alessandro Tomate, presidente da Comissão de Orçamento e Finanças, rebateu os argumentos do líder de governo. Ele destacou sua formação em gestão pública e ciência política e reforçou que, embora o orçamento seja executado pelo prefeito, ele é aprovado pelo Legislativo.
Tomate sustentou que a emenda discricionária aprovada para o Centro Dia deveria ser mantida e que o Executivo poderia ter feito o remanejamento a partir da própria Secretaria de Governo, que possui orçamento superior a R$ 12 milhões.
“O orçamento é do Executivo, mas a tinta é nossa”, declarou. Segundo ele, se a emenda tivesse sido mantida e o ajuste feito em outra pasta, o Centro Dia não teria perdido cerca de R$ 150 mil.
O debate se intensificou quando Tomate questionou diretamente Sargento Carlos se a retirada do valor teria ocorrido caso o prefeito tivesse optado por remanejar recursos da própria Secretaria de Governo.
Bonete cobra planejamento e prioridade às entidades
A vereadora Bonete também participou da discussão e destacou a preocupação das entidades com o fluxo de recursos ao longo do ano.
Ela questionou como as instituições funcionariam até dezembro caso dependessem de eventual suplementação futura. “E até dezembro como fica?”, indagou.
Bonete relatou que recebeu informações de dificuldades enfrentadas por entidades e defendeu planejamento adequado para evitar interrupções nos serviços. “Essa Casa não está aqui para atrapalhar o governo, mas para ajudar”, afirmou, ressaltando que os vereadores permanecem em sessão extraordinária pelo tempo necessário quando se trata de interesse público.
Troca direta e clima tenso
Em momento mais tenso, Tomate insistiu na pergunta ao líder de governo sobre a manutenção da emenda original. Sargento Carlos respondeu que acredita “piamente” que o prefeito fará o pagamento integral até o fim do exercício e que o aumento concedido às entidades demonstra boa-fé do Executivo.
Tomate, por sua vez, criticou a comparação entre os valores retirados e gastos com eventos, mencionando que o montante discutido seria inferior a despesas previstas para o Carnaval.
Ao final, a Vereadora Boneti sugeriu que, caso faltem recursos às entidades ao longo do ano, que procurem diretamente o prefeito.
A sessão evidenciou a tensão entre base governista e oposição, com divergências centradas na condução das prioridades orçamentárias e no papel fiscalizador do Legislativo.

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